Frances Thompson: a mulher trans que testemunhou perante o Congresso

Frances Thompson foi a primeira pessoa transgenera conhecida a testemunhar perante o Congresso dos Estados Unidos. Mulher trans negra, ex-escravizada, sobrevivente de violencia sexual durante o massacre de Memphis de 1866, seu testemunho contribuiu para mudar o curso da historia americana. Dez anos depois, foi presa, humilhada e destruida pela mesma identidade que havia vivido abertamente por quase trinta anos.
Primeiros anos e escravidao
Frances Thompson nasceu por volta de 1840 em Maryland [1][4]. Foi escravizada pela familia de Robert Walker, um proprietario de terras de origem virginiana, e levada a Memphis quando crianca [5]. Desde a infancia, Thompson viveu como mulher. A familia Walker a reconheceu como menina e permitiu que usasse roupas femininas [5].
Thompson sofria de uma deficiencia fisica — um tumor no pe que lhe causava dificuldade para andar e a obrigava a usar muletas [5]. Apesar dessas limitacoes, apos a emancipacao, construiu uma vida autonoma em Memphis, alugando uma casa na Gayoso Street, no bairro de maioria negra conhecido como “Hell’s Half-Acre” [5]. Trabalhava como costureira, lavadeira e governanta, ganhando o respeito da comunidade.
Memphis antes do massacre
A Memphis do pos-guerra civil era uma cidade em efervescencia. A populacao negra havia crescido rapidamente com a chegada de pessoas libertadas da escravidao e de veteranos do Exercito da Uniao. Esse crescimento gerava tensoes profundas com a populacao branca, em particular com a policia municipal e os residentes de origem irlandesa, que viam na comunidade negra emancipada uma ameaca ao seu status social e economico [6][8].
Thompson vivia nesse contexto precario, mas havia construido uma rede de relacoes na comunidade. Dividia sua casa com Lucy Smith, uma jovem negra de cerca de dezesseis anos [6]. Alem do trabalho de costureira, Thompson se afirmou tambem como “Madame Thompson, Adivinha”, praticando o hoodoo — uma tradicao espiritual afro-americana — e criando saquinhos protetores que vendia na regiao da antiga prisao do condado de Shelby [5].
O massacre de Memphis
Em 1 de maio de 1866, um confronto entre policiais brancos e um grupo de veteranos negros do Exercito da Uniao deflagrou tres dias de violencia racial sistematica [1][2]. Multidoes brancas, frequentemente lideradas ou acompanhadas por policiais, atacaram a comunidade negra de Memphis. O saldo foi devastador: 46 pessoas negras mortas, dezenas de mulheres estupradas, mais de 90 casas incendiadas, junto com igrejas e escolas [2][6].
Na noite de terca-feira, entre uma e duas da madrugada, sete homens invadiram a casa de Thompson. Dois deles eram policiais, reconheciveis pelas estrelas no peito; todos eram irlandeses [6][9]. Exigiram que Thompson preparasse o jantar: ovos, presunto, biscoitos e cafe forte. Depois de comer, exigiram que Thompson e Lucy Smith tivessem relacoes sexuais com eles.
Thompson recusou. Disse-lhes que nao eram “esse tipo de mulheres” e que deviam ir embora [6]. Um dos homens a golpeou no rosto, agarrou-a pelo pescoco e a estrangulou. Quando Lucy tentou fugir pela janela, outro a agarrou e a jogou no chao. Os homens sacaram as pistolas e ameacaram incendiar a casa.
Todos os sete estupraram as duas mulheres. Quatro estupraram Thompson, os demais Lucy [6][9]. A violencia durou horas. Antes de ir embora, os homens roubaram 100 dolares em cedulas pertencentes a Thompson, 200 dolares de outra mulher, tres vestidos de seda e as colchas que Thompson e Smith estavam costurando. Ao sair, declararam querer “queimar ate o ultimo maldito negro” [6].
Thompson ficou de cama com febre alta por tres dias e ficou doente por duas semanas [6].
O testemunho perante o Congresso
Em 1 de junho de 1866, um mes apos o massacre, a Camara dos Representantes enviou a Memphis uma comissao de inquerito liderada pelo republicano de Illinois Elihu B. Washburne [1][4]. A comissao se reuniu no Gayoso House Hotel e ouviu 170 testemunhas — homens e mulheres que relataram as violencias sofridas.
Frances Thompson estava entre as testemunhas. Perante a comissao congressual, relatou em detalhes o que havia acontecido com ela e com Lucy naquela noite. Seu relato — lucido, preciso, sem enfase retorica — comoveu os membros da comissao ate as lagrimas [1][2].
Seu testemunho e o dos demais sobreviventes tiveram um impacto politico enorme. Junto com o massacre de Nova Orleans ocorrido no mesmo ano, os depoimentos contribuiram para rejeitar as politicas conciliatorias do presidente Andrew Johnson em relacao ao Sul e para fortalecer a posicao dos Republicanos Radicais no Congresso [2]. Isso levou a aprovacao dos Reconstruction Acts, dos Enforcement Acts e da Decima Quarta Emenda a Constituicao, que garantia cidadania e igual protecao legal a todas as pessoas nascidas nos Estados Unidos [2][8].
Frances Thompson e considerada a primeira pessoa transgenera conhecida a ter testemunhado perante o Congresso dos Estados Unidos [1][2][7].
Dez anos de vida em Memphis
Nos dez anos seguintes ao testemunho, Thompson continuou a viver abertamente como mulher em Memphis. Os registros policiais do periodo mostram que foi presa diversas vezes por brigas, conduta desordenada e pela gestao de um suposto bordel — uma acusacao frequentemente usada contra mulheres negras solteiras da epoca [5]. Pagava multas modestas, entre 5 e 15 dolares, e voltava a sua vida.
O censo federal de 1870 a registra como mulher [5]. A comunidade a conhecia como “Tia Crutchie” (de seu uso de muletas) e como a cartomante da Front Street [5]. Por quase trinta anos, da escravidao a liberdade, Thompson vivera sua identidade sem que ninguem a questionasse formalmente.
A prisao de 1876
Na noite de 10 de julho de 1876, um vizinho denunciou Thompson a policia de Memphis, alegando que nao era uma mulher, mas um homem travestido [4][5]. O agente Pat McElroy a prendeu.
Thompson foi submetida a um exame medico forcado pelo doutor Joseph Nuttall e por outros tres medicos, que a declararam biologicamente masculina [5]. Thompson se descreveu como pessoa “de duplo sexo” [1][4]. Foi indiciada por violacao da ordenanca municipal sobre indecencia publica — uma norma que criminalizava o chamado “travestismo”, aprovada antes da Guerra Civil como parte de um pacote de leis pensadas para controlar a vida publica das pessoas negras, junto com a proibicao de vadiagem e das reunioes sociais negras [5].
A multa era de 50 dolares (equivalentes a cerca de 1.400 dolares atuais). Thompson nao podia paga-la. Foi condenada a 100 dias de trabalhos forcados na corrente de detentos da cidade, ao ritmo de 50 centavos por dia [5].
Humilhacao publica
Em 14 de julho de 1876, Thompson foi fotografada duas vezes: uma em roupas de detenta masculinas, outra em roupas femininas fornecidas pelo estudio fotografico [5]. As imagens foram expostas na “galeria de criminosos” do chefe de policia Phil Athy e reproduzidas como gravuras em um tabloide de Nova York, depois distribuidas a outros departamentos de policia do pais.
As autoridades confiscaram seus bens. O proprietario do imovel entrou com acao por alugueis atrasados; seus moveis, roupas de cama e sua placa “Madame Thompson, Adivinha” foram confiscados e leiloados [5].
Multidoes de curiosos se reuniam ao longo do percurso diario da corrente de detentos para olhar Thompson, fazer-lhe perguntas ou insulta-la [4][5]. A confusao era tanta que alguns companheiros de detencao conseguiram aproveitar a oportunidade para fugir. Thompson foi removida da corrente e terminou de cumprir a pena na delegacia de policia, onde as perseguicoes continuaram.
Instrumentalizacao politica
A prisao de Thompson nao foi apenas um ato de perseguicao individual. Os Democratas do Sul, que ha uma decada buscavam desmantelar a Reconstrucao e os direitos das pessoas negras, usaram a noticia para desacreditar seu testemunho de 1866 [1][2]. Se Thompson era um “homem travestido de mulher”, argumentavam, entao sua denuncia de estupro era uma mentira e, por extensao, todos os testemunhos sobre o massacre de Memphis eram nao confiaveis.
Era uma estrategia politica deliberada: deslegitimar uma sobrevivente para deslegitimar um movimento inteiro pelos direitos civis. A logica era a mesma que seria usada por decadas contra as pessoas trans: negar sua identidade para negar sua credibilidade, seu sofrimento, sua humanidade.
Morte
Apos a soltura, Thompson se mudou para o norte de Memphis, gravemente debilitada [4][5]. Alguns membros da comunidade, preocupados com seu estado, a acompanharam ao hospital.
Frances Thompson morreu em 1 de novembro de 1876, com cerca de trinta e seis anos, de disenteria no hospital da cidade [4][5].
Um legado redescoberto
Por mais de um seculo, a historia de Frances Thompson foi esquecida ou relegada a uma nota de rodape nos manuais sobre a Reconstrucao. Quando era mencionada, era frequentemente atraves da lente deformante de seus perseguidores: o “travestido” desmascarado, nao a mulher que havia desafiado o Congresso.
Somente nos ultimos anos, gracas ao trabalho de historiadores e ativistas, sua figura foi recolocada no centro da narrativa. A historiadora Hannah Rosen, em seu estudo “Terror in the Heart of Freedom” (2009), analisou como a violencia sexual durante a Reconstrucao era um instrumento de terror racial e de genero, devolvendo dignidade ao testemunho de Thompson [8]. Organizacoes como o Human Rights Campaign e o Trans History Project a reconhecem hoje como uma pioneira na historia dos direitos trans e civis [2][7].
A historia de Frances Thompson fala a um presente que conhece bem a dinamica do outing forcado como arma politica, da deslegitimacao das pessoas trans atraves da negacao de sua identidade, do uso da lei como instrumento de perseguicao em vez de protecao. Em 1876, bastava um vizinho e uma ordenanca sobre indecencia para destruir uma vida. A distancia com o presente e menor do que gostariamos de acreditar.
Perguntas frequentes
Quem foi Frances Thompson?
Frances Thompson (1840-1876) foi uma mulher trans negra, ex-escravizada, que viveu em Memphis no periodo da Reconstrucao. Em 1866, foi a primeira pessoa transgenera conhecida a testemunhar perante o Congresso dos Estados Unidos, relatando as violencias sofridas durante o massacre de Memphis.
O que foi o massacre de Memphis de 1866?
O massacre de Memphis foi uma explosao de violencia racial que durou tres dias, de 1 a 3 de maio de 1866, na qual multidoes brancas e policiais atacaram a comunidade negra da cidade. Foram mortas 46 pessoas negras, dezenas de mulheres foram estupradas, e casas, igrejas e escolas foram incendiadas.
Por que o testemunho de Frances Thompson foi importante?
Seu testemunho perante a comissao congressual contribuiu para rejeitar as politicas do presidente Andrew Johnson e apoiar a Reconstrucao Radical, levando a aprovacao dos Reconstruction Acts, dos Enforcement Acts e da Decima Quarta Emenda, que garantiram os direitos civis das pessoas negras emancipadas.
Como Frances Thompson morreu?
Em 1876, Thompson foi presa sob acusacao de indecencia publica por usar roupas femininas e condenada a 100 dias de trabalhos forcados. Apos a soltura, adoeceu e morreu de disenteria em 1 de novembro de 1876, com cerca de 36 anos.
Para aprofundar
- Livro Terror in the Heart of Freedom (2009)